Retrospectiva 2019: os avanços no universo dos ativos digitais

3.1.2020

2019 viu uma evolução no mercado de ativos digitais no Brasil e no mundo.

A transformação digital desde o começo do século XXI modifica drasticamente diversos segmentos da economia e o modo como a sociedade se organiza. A forma como estudamos, fazemos compras, nos comunicamos e fazemos negócios definitivamente mudou e a economia digital começou a ganhar força.

A maneira como os investidores aplicam seus recursos financeiros e negociam ativos também está mudando com a economia digital. Tecnologias como os DLTs e os blockchains trazem mais eficiência, rapidez e confiabilidade para as transações.

Essas mudanças estão ajudando o mercado financeiro como um todo a mudar. Instituições bancárias e corretoras de investimentos passaram a rever seus modelos de negócio, suas estratégias, e estão analisando como podem usar o blockchain e outras tecnologias descentralizadas para melhorar a experiência de seus clientes.

Agora, o mercado financeiro se debruça sobre os ativos digitais, sejam criptomoedas ou criptoativos lastreados por ativos reais, como os Security Tokens, para descobrir qual é a melhor forma de negociá-los.

O que precisa ficar claro é: apesar de disruptivas, as tecnologias descentralizadas não vieram para acabar com o mercado financeiro, mas sim para transformá-lo em um mercado mais dinâmico, conectado, com menos falhas humanas, mais seguro e eficiente.

Neste artigo, separamos alguns destaques do mercado de digital assets no ano de 2019.

 

Os ativos digitais no mundo em 2019

Já esclarecemos que criptomoedas e ativos digitais não são a mesma coisa, mas que criptomoedas podem ser consideradas digital assets. E foram elas as grandes personagens de 2019.

As moedas digitais tiveram um desempenho maior do que muitas classes de ativos tradicionais em 2019. As criptomoedas ultrapassaram os retornos anuais de equities, commodities e ativos de renda fixa em 2019, consolidando ainda mais essa nova classe de ativo no mercado financeiro e na economia digital.

Segundo informações da Digital Assets Data, a valorização de mercado das 10 principais criptomoedas em 2019 foi bem melhor quando comparada a outras classes de ativos como o ouro, petróleo e equities.

Deu para perceber que investir em criptoativos voltou a se tornar uma opção interessante em 2019. É claro que a especulação continua sendo muito comum neste mercado, no entanto, muitas pessoas perceberam que esses ativos podem ir bem além disso.

Um dos aspectos mais importantes e mais difíceis para a evolução desses ativos é atrair investidores institucionais. Alguns dos desafios para atrair mais investidores institucionais são melhorar a segurança jurídica através de regulação e melhorar a experiência dos usuários, deixando a tecnologia invisível.

Além de outras questões, como os desafios de custódia profissional, liquidez e até o tamanho total do mercado de criptomoedas, que ainda é pequeno, cerca de US$ 200 bilhões, comparado a outros mercados que possuem trilhões de dólares em capitalização de mercado, o que afasta fundos maiores e mais profissionais.

Para se ter ideia dos valores de mercado de determinados ativos, vamos enumerar alguns dos ativos mais tradicionais:

Ouro = US$ 7 trilhões
Mercado de ações = US$ 70 trilhões
Dívida global = Mais de US$ 200 trilhões
Derivativos = Mais de US$ 550 trilhões

 

Ativos digitais no Brasil em 2019

Os ativos digitais movimentaram cerca de R$ 14 bilhões somente em agosto e setembro no Brasil, segundo a Receita Federal. Esse valor se refere apenas às criptomoedas negociadas no bimestre em questão:

> Agosto: 1,5 milhão de operações, movimentando R$ 4,48 bilhões em criptoativos.
> Setembro: 989,9 mil operações, movimentando R$ 9,48 bilhões em criptoativos.

Isso mostra que o país tem um potencial enorme para ser um player cada vez mais relevante no mercado de criptoativos. O Brasil foi o responsável por movimentar mais de metade do volume de negociações com criptomoedas da América Latina em 2019. E segundo a Binance, o número pode chegar a 65% de todo o volume latinoamericano.

Mesmo assim, a taxa de adesão dos brasileiros à tecnologia cripto ainda é muito baixa, menos de 1%. A adesão de tecnologias descentralizadas na Turquia, por exemplo, é de 10% aproximadamente.

Para mudar esse cenário, é preciso que mais investidores institucionais comecem a optar pelo mercado de criptomoedas.  Com mais investidores com esse perfil mais profissional, que enxergam o real valor das tecnologias descentralizadas e dos projetos para solucionar problemas da sociedade, o mercado ficará mais estável.

 

Ativos tradicionais negociados com blockchain

O Brasil também viu em 2019 sua primeira negociação com debênture por meio de blockchain. A tecnologia foi usada para transacionar 440 títulos de R$150 mil cada, totalizando R$ 66 milhões entre 5 investidores qualificados.

A experiência de negociação de ativos digitais foi uma das primeiras no país e segue a tendência mundial de outras instituições financeiras globais que vêm realizando a negociação de títulos e outros ativos por meio de blockchains.

A Piemonte, uma gestora carioca de recursos, por exemplo, fez uma negociação com debêntures emitidos por ela mesma na rede Ethereum. Foram R$ 66 milhões distribuídos em 440 títulos de R$ 150 mil cada, a cinco investidores qualificados, portanto sem esforço de colocação no mercado.

Isso mostra que os ativos tradicionais também poderão ser negociados como ativos digitais no mercado financeiro, o que abre caminho para o uso da tecnologia de registro distribuído para a captação de recursos no mercado de capitais tradicional.

O blockchain vem sendo implementado de forma gradual por instituições financeiras brasileiras e também por outras corretoras de valores, com foco na redução de custos e na maior transparência das operações financeiras, algo importantíssimo para seus clientes.

O cenário dos ativos digitais é promissor a curto/médio prazo. No futuro próximo, com a regulação do Banco Central e da CVM, empresas e bancos poderão usar tecnologias de blockchain para negociar ativos no mercado financeiro.

O ReitBZ do BTG Pactual, que já está disponível para investimento, é um bom exemplo desse novo formato. Esse token oferece acesso ao setor de mercado imobiliário com ativos de baixa liquidez por meio da tecnologia blockchain.

A ideia é conectar investidores – de pequeno ou de grande porte – de qualquer lugar do mundo a ativos brasileiros por meio de um processo de investimento digital. Esse é um processo conhecido como tokenização de ativos reais. Em outras palavras, esse processo representa a criação de Security Tokens, ou tokens lastreados por ativos. Esse tipo de ativo recebeu uma atenção considerável em 2019.

 

2019 viu um crescimento dos Security Tokens

O mercado dos Security Tokens – tokens lastreados por ativos reais cresceu em 2019. Alguns especialistas inclusive apostaram este ano como sendo o ano dos Security Tokens. De fato, alguns projetos começaram a ser colocados em prática. No entanto, não podemos afirmar que esse foi o ano dos STOs.

Em abril deste ano, por exemplo, a 20|30, uma startup de blockchain sediada em Londres, tokenizou ações e outros valores mobiliários e conseguiu levantar £3 milhões na Bolsa de Londres. Essa foi a primeira negociação de ações do tipo usando tecnologias de blockchain no Reino Unido

Outro exemplo interessante de tokenização é o Paperchain. Esse é um projeto que está tokenizando royalties do Spotify especificamente para artistas de pequeno e médio porte. O objetivo é criar uma nova ferramenta de pagamento para artistas que não possuem sucesso suficiente para ganhar grandes royalties.

De fato, 2019 mostrou alguns novos projetos de STOs. Diversos países começaram a trabalhar a tokenização de seus ativos, mas ainda há muito trabalho pela frente quando o assunto é o uso de tecnologias descentralizadas no mercado financeiro.

Esse ecossistema é novo e vem apresentando um crescimento intenso, ano após ano, transformando segmentos de ativos tradicionais e fortalecendo um novo mercado ao redor das tecnologias de blockchain. Uma série de empresas e instituições enxergam na tokenização de ativos mobiliários uma grande oportunidade de negócios.

Alguns dos benefícios desse tipo de negociação são:

  • Liquidez adicional
  • Fim dos intermediários
  • Ciclos de liquidação mais rápidos
  • Mercados globais conectados o ano todo

No entanto, a infraestrutura para que esses processos aconteçam ainda precisa de bastante trabalho e tempo para ser construído e implementado. Somente quando essa implementação acontecer de fato é que ofertas de alta qualidade, começarão a surgir e investidores irão começar a aportar seus recursos.

 

ICOs perderam força

O crescimento dos STOs em 2019 tem uma relação direta com os ICOs perdendo força. Em 2017, os ICOs viveram uma popularização extrema por conta da facilidade de captação que esta nova tecnologia permitia, tanto no Brasil quanto no mundo.

Essa popularização gerou um fluxo de entrada de dinheiro no mercado e isso ajudou a inflar o preço dos ativos, em especial do bitcoin e ethereum. Essa nova onda de investidores ajudou a atrair mais dinheiro para o mercado, o que foi, no geral, positivo.

2018 ainda viu alguns ICOs acontecendo, mas o ritmo diminuiu. E continuou caindo bastante em 2019: em janeiro de 2018, a previsão era de mais de 160 projetos sendo lançados, número que foi para zero em outubro de 2019. Em recursos financeiros arrecadados o cenário não muda: o total levantado em 2019 com as ICOs girou em torno de US$ 338 milhões, aproximadamente 95% menos que o ano passado.

Além dos STOs, que já começaram a mostrar alguns problemas que precisam ser corrigidos para que continuem se desenvolvendo, os ICOs evoluíram para outro modelo: as Initial Exchange Offerings ou IEOs.

O surgimento delas se deu também em 2017, mas 2019 viu um crescimento e principalmente uma evolução das IEOs, com a Binance sendo uma das principais plataformas de emissão de IEOs desse novo mercado.

A evolução se deu pelo fato de que, com os IEOs, os projetos não precisam mais de meses para levantar fundos. Algumas IEOs levantaram recursos financeiros em questão de minutos. Os IEOs funcionam mais ou menos com o mesmo conceito dos ICOs.

A diferença é que o financiamento do projeto fica por conta de uma exchange de confiança e já conhecida no mercado geralmente, o que facilita a vida dos investidores e dos desenvolvedores do projeto que não precisam se preocupar com a parte de negociação dos ativos.

Algumas IEOs que aconteceram em 2019 foram a BlockCloud, com foco nos setores automotivo, healthcare e de economia compartilhada; a MultiVAC que pretende trazer escalabilidade para as transações financeiras; e o OATH Protocol, que pretende criar  um sistema para proteger os direitos e os ativos de usuários de DApps.

 

Mais serviços de ativos digitais oferecidos por instituições financeiras

Essa tendência, iniciada em 2018, continuou a crescer em 2019. As fintechs em especial têm trabalhado intensamente para que os clientes tenham mais liberdade para gerenciar seus próprios ativos de forma digital.

Essa nova experiência do usuário proporcionada pela economia digital pode ser assustadora para muitas pessoas, mas para as novas gerações é bem vista. Há também um ponto interessante em relação ao lado comercial de possuir serviços de custódia para ativos digitais.

As soluções de custódia são importantes para os mercados financeiros tradicionais e agora estão começando a ser essenciais também para a economia digital. A indústria de custódia de criptomoedas vem crescendo rapidamente, mas ainda precisa evoluir em comparação ao mercado financeiro tradicional.

 

E por que os investidores institucionais precisam de serviços de custódia?

Investidores institucionais precisam de um solução de custódia que seja transparente e confiável para começar a investir em criptomoedas. Exchanges como a Coinbase, Xapo e algumas outras estão oferecendo soluções de custódia, embora o escopo ainda seja relativamente limitado, já que poucos ativos são oferecidos para negociação.

No caso de instituições bancárias maiores e mais consolidadas no mercado financeiro tradicional, elas também estão começando a oferecer serviços de custódia para moedas digitais. A Fidelity, por exemplo, lançou sua solução de custódia em 2019, para custodiar bitcoins, por enquanto.

 

E quais são os desafios únicos da custódia do bitcoin?

Algumas instituições financeiras mais tradicionais estão tentando trabalhar com esses serviços para criptoativos e ativos digitais para não sofrerem com a revolução financeira sem bancos, afinal as instituições bancárias não estão participando diretamente da transformação criada pelas tecnologias descentralizadas.

Garantir a custódia de criptomoedas não é uma tarefa fácil para bancos de varejo. As criptomoedas são ativos diferentes, com um caráter de propriedade inalienável (até certo ponto). Em outras palavras, se você é dono de uma moeda digital, a propriedade está registrada em um blockchain e só você pode movimentá-la.

Isso significa que eles praticamente não podem ser roubados e quando o dono perde o acesso à carteira onde as criptomoedas estão armazenadas, ele dificilmente consegue recuperá-las. Se o dono falecer, o caso fica ainda mais difícil. Ao contrário de uma conta bancária ou cartão de crédito que pode ser recriado ou o banco pode simplesmente reverter uma transação.

Por isso é tão complexo garantir a custódia de moedas digitais. Alguns investidores institucionais estão optando por armazenar seus criptoativos em carteiras offline. No entanto, essas soluções não são simples de serem implementadas do ponto de vista operacional.

 

O sistema financeiro está se transformando

Ainda não sabemos ao certo o que acontecerá no  futuro e é bastante difícil tentar adivinhar o futuro (nem é nossa proposta aqui), mas uma coisa é certa: o sistema financeiro tradicional está se misturando bastante com o ecossistema cripto.

Exchanges de criptoativos também estão se movimentando para operar em novos formatos dentro do universo de ativos digitais. A ideia é ampliar a oferta de serviços além da negociação de criptomoedas, sem a necessidade de um banco tradicional como parceiro comercial.

As instituições bancárias também estão mudando seus caminhos e buscando trabalhar com novas tecnologias – em especial as tecnologias descentralizadas – para transformar o setor financeiro e a gestão financeira, ampliando o escopo de serviços para uma nova economia digital.

Tecnologias de blockchain, mobile banking, security tokens, IEOs, wearables que permitirão pagamentos digitais, negociação de criptomoedas e outros ativos digitais, todas essas novas tecnologias são oportunidades que os bancos precisam trabalhar para manter seus clientes engajados e atrair novos clientes nesse novo ecossistema de negócios.

 

Fontes:
https://epocanegocios.globo.com/Tecnologia/noticia/2019/12/epoca-negocios-brasil-faz-1a-transacao-com-debenture-por-meio-de-blockchain.html
Digital Assets Data

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