Como o blockchain pode impactar a hegemonia norte-americana no sistema financeiro em 2020

3.2.2020

Como está o cenário das CBDCs e como os EUA podem perder a hegemonia do sistema financeiro global? Confira

O século 20 foi marcado por uma escalada gigantesca dos Estados Unidos como potência global, em especial em fatores financeiros e sociais, com a globalização e o desenvolvimento de uma forte economia e de uma enorme influência cultural em outros países.

Com um forte estímulo ao consumo, a criação de novos mercados e blocos econômicos, a globalização tomada como fenômeno extremamente ligado ao país funcionou bem e ampliou o poder e influência norte-americana na geopolítica global.

No entanto, o começo do século 21 trouxe um novo personagem na economia global: a China. Depois da Revolução Cultural e Política da década de 50, o país asiático passou a ter um projeto muito mais estruturado de como seria no futuro.

E esse futuro chegou. Hoje, a China, apesar de fatores políticos complexos e que não merecem nossa atenção neste artigo, é uma das economias mais fortes do mundo, com infraestrutura tecnológica altamente avançada e que tem tudo para tomar o lugar do grande líder do ranking, os Estados Unidos.

E não é à toa: a China já possui mais de 79 mil empresas de blockchain registradas e 26 mil em operação, de acordo com a LongHash. Os Estados Unidos, apesar de ser reconhecido também como um grande investidor em novas tecnologias, possuía apenas 2.252 startups de blockchain até agosto do ano passado.

O que isso significa? Que as empresas que produzem soluções com base nas tecnologias distribuídas e no blockchain podem impactar significativamente a hegemonia norte-americana no sistema financeiro ainda em 2020.

Além das empresas, ainda tem o governo, que está criando um importante motor para essa transformação do sistema financeiro: o Yuan digital.

 

O Yuan digital

Bom, você já deve saber o que é uma CBDC (Central Bank Digital Currency). Basicamente falando, trata-se do conceito de uma moeda digital criada por um Banco Central, neste caso, o Banco Central da China.

Conhecido como Banco Popular da China, agora ele é responsável, além da gestão de todo o sistema financeiro do país, também por criar e operacionalizar a CBDC da China, popularmente nomeada de Digital Yuan.

O desenvolvimento do Yuan digital deu um grande salto à frente – parafraseando o lema da primeira revolução chinesa – em janeiro deste ano, segundo o Banco Central Chinês. Os processos de design da solução, a definição de padrões dessa nova indústria, as funções potenciais e os testes de integração estão quase completos.

O Instituto de Pesquisas em Moedas Digitais criado pelo governo chinês em 2014 afirma que o Digital Yuan é melhor que uma série de CBDCs e stablecoins, inclusive a Libra, projeto de moeda digital liderada pelo Facebook.

Mas melhor em quê? Melhor nos principais recursos técnicos, tais como a habilidade de processar transações offline em smartphones. Outro grande objetivo dessa CBDC chinesa é promover a internacionalização do renminbi – a moeda oficial da República Popular da China, que é distribuída pelo Banco Popular da China.

Ela pode ser usada em pagamentos transfronteiriços sem a necessidade de intermediários bancários tradicionais, que cobram taxas por esse serviço e demoram muito mais tempo para processar as transações.

O yuan digital deve funcionar muito mais como uma moeda fiduciária do que como uma criptomoeda como o bitcoin. Seu valor está atrelado ao yuan regular, portanto, espera-se que seja relativamente estável. Além disso, o banco central poderá monitorar todas as transações para que não haja o mesmo anonimato inerente ao bitcoin.

 

O impacto do blockchain no sistema financeiro global

O blockchain ganhou ampla popularidade à medida em que especialistas e desenvolvedores passaram a encontrar novos casos de uso em vários setores, seja no setor financeiro como um todo, com soluções para o processamento de pagamentos e transferências de dinheiro, ou em setores como o de logística, com o monitoramento de cadeias de suprimentos e gerenciamento de identidades digitais, entre outros.

O que queremos destacar é o tamanho do impacto que as tecnologias blockchain terão no sistema financeiro global nos próximos anos. Segundo a BlockTelegraph, cerca de 90% dos bancos norte-americanos e europeus já começaram a explorar o potencial do blockchain em 2018.

Para termos uma ideia, instituições financeiras no mundo todo foram responsáveis por um aporte de US$ 552 milhões em projetos que usam blockchain. Isso tem um porquê: o setor financeiro corresponde a 60% do valor de mercado global do blockchain atualmente, de acordo com a Statista.

Os resultados dos investimentos atuais não chegarão no curto prazo: a previsão para que o blockchain se torne uma tecnologia popular é 2030, quando o valor dos projetos atingirá algo próximo aos US$ 3,1 trilhões, segundo o Gartner.

Mas como essa tecnologia impactará o sistema financeiro global? O setor financeiro está enfrentando uma série de problemas atualmente e essa inovação tecnológica pode resolver grande parte deles.

Ele pode atuar em desafios com ferramentas de KYC que geram custos excessivos para o setor bancário e financeiro; ou a série de documentos em papel que ainda são impressos até hoje como contratos, faturas e boletos; proteção contra fraudes; otimização e praticidade para pagamentos locais e internacionais; além da garantia de maior acessibilidade a investimentos em ativos digitais.

Esses são somente alguns dos usos mais básicos do blockchain que vão – com certeza – impactar o setor financeiro no curto prazo. E os projetos de CBDC também entram nesse jogo para mudar o sistema financeiro em uma escala muito maior.

Mas mudar o sistema financeiro como? Você já imaginou o impacto global que uma Central Bank Digital Currency como o Digital Yuan pode ter nas reservas de dólar fiduciário?

 

O impacto na hegemonia econômica norte-americana

Um fato que o Digital Yuan está trazendo à tona é que a China está anos-luz à frente dos Estados Unidos em acabar com o papel moeda ou até mesmo o uso de cartões de débito e crédito e outros métodos de pagamento tradicionais.

Para muitos especialistas, o lançamento oficial do Yuan Digital – tudo indica que será em 2020 –  pode marcar o começo de uma nova “Guerra Fria”, dessa vez financeira, com a supremacia do dólar americano ameaçada.

Na China de mais de 1 bilhão de pessoas, já é bastante comum para a maior parte da população pagar compras sem dinheiro, usando aplicativos populares para smartphones, como WeChat e Alipay.

“Dá para fazer basicamente tudo com apenas esses dois aplicativos”, resume Martin Chorzempa, pesquisador do Instituto Peterson de Economia Internacional. “Você entra em um restaurante, lê um código e pede sua comida. Você não precisa esperar por um garçom. Todos os pagamentos são automáticos. É extraordinário.”

Mas então por que inserir o Digital Yuan nesse cenário? Bom, o governo chinês incentivou a criação desse sistema de pagamentos digitais e a popularização dele por meio de empresas de tecnologia e agora quer abocanhar uma participação nessa economia digital.

Para o historiador de Princeton, Harold James, estudioso de moedas digitais, “nós estamos bem no meio de uma gigantesca transformação técnica do dinheiro”. Para ele, a nova moeda digital da China pode fazer frente ao dólar como um método de pagamento internacional muito importante.

Algumas das reuniões em Davos este ano mostraram claramente isso: um número crescente de vozes pediu que os EUA comece a planejar a criação e emissão de um “dólar digital” aos moldes do digital yuan para competir diretamente com o gigante do Oriente.

Para Christopher Giancarlo, ex-presidente da Comissão de Comércio de Commodities Futuras (CFTC), “[…] os desafios de usar o dólar no mundo digital são muito complexos. O que estamos propondo é uma forma digital (desse dólar) que seria cunhada pelo Banco Central e seria disponibilizada aos usuários por meio do sistema bancário tradicional e de outras empresas bancárias.”

Mas ele se preocupa com as questões de privacidade que a digitalização do dólar pode trazer. Obviamente, já existe alguma rastreabilidade nos formatos de pagamento hoje, mas com o dólar digital será muito mais fácil para o governo identificar o que você está comprando, onde e quando. Essas informações não precisam ser tão abertas assim e podem ser mais protegidas.

De qualquer forma, a hegemonia do dólar norte-americano está de fato ameaçada. Hoje, o dólar como reserva global de valor ainda é muito poderoso e o Banco Central dos EUA quer proteger essa posição.

A vantagem do governo norte-americano é que ele pode esperar o movimento do Yuan Digital para aprender com os erros da moeda pioneira chinesa, para então apresentar a sua versão de dólar digital. Por isso, para o governo federal norte-americano, parece que o dólar digital ainda vai demorar alguns anos para ser implementado.

 

Outros bancos trabalhando com CBDCs

A China e o EUA não são os únicos países que desejam emitir suas próprias moedas digitais. Mais de 20 países adotaram ou pelo menos pesquisaram o conceito de CBDC. Os bancos centrais da Grã-Bretanha, Japão, a zona do euro, Suécia e Suíça, por exemplo, se agruparam com o Bank for International Settlements (BIS) para avaliar possíveis casos de uso dessas moedas.

As CBDCs ganharam impulso recentemente, à medida que os bancos centrais buscam inovar diante da concorrência da China e da stablecoin do Facebook.

Até mesmo o Banco Nacional do Camboja (NBC) começou a desenvolver e está se preparando para lançar sua central bank digital currency em algum momento durante o atual trimestre fiscal.

O projeto conhecido como Bakong vai funcionar em um sistema fechado suportado por seus membros bancários, sendo um deles o Banco Comercial Phnom Penh (PPC Bank).

Segundo Shin Chang Moo, presidente do PPC Bank, o sistema será implantado em todas as agências pois é mais barato e mais conveniente. “Estamos nos estágios finais da implantação. Demorou um pouco mais do que o esperado, porque estávamos garantindo que o sistema seja o mais útil e conveniente possível para os usuários. Vamos oferecer o serviço assim que for lançado.”

A ideia não é criar uma moeda digital para especulação como é o caso de outras criptomoedas. O uso da plataforma é para automatizar e digitalizar o sistema financeiro do país, permitindo maior rastreabilidade das atividades financeiras da população, além de gerar maior praticidade e conectividade para esses usuários.

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O fato é que as moedas digitais não só podem como vão tornar as transações financeiras muito mais baratas, mais fáceis e mais eficientes. Na medida em que começarem a funcionar, provavelmente vão desencadear uma agitação no sistema financeiro global.

Os dois principais personagens dessa história envolvendo moedas digitais de bancos centrais ou stablecoins – independentemente de serem patrocinados por uma gigante de tecnologia americana ou pelo Banco Central Chinês – têm tudo para modificar o sistema financeiro global e fazer o mundo entrar de uma vez por todas na economia digital.

 

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